O sexo fraco

Posted on 1/19/2012 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

As prostitutas de Macau estão maior parte das vezes vulneráveis perante os clientes. São eles que recusam usar preservativo e que, nalguns casos, exercem sobre elas violência. Um terço dos serviços sexuais ocorre sem protecção.

Os clientes não querem, muitas vezes, usar preservativo. E, por vezes, não usam. Apenas 70 por cento das trabalhadoras da indústria do sexo utiliza recorrentemente o preservativo nas relações com os seus clientes. Ora porque acedem a uma oferta de pagamento suplementar para que tal aconteça ou temem perder o serviço num mercado muito competitivo, ora porque são coagidas com violência.

Não são raros os casos de agressões e violações que, na sua maioria, não são punidos por falta de denúncia – não há confiança nas polícias locais, diz um estudo apresentado ontem pelos Serviços de Saúde de Macau (SSM).

O retrato é incompleto, com algumas limitações metodológicas, e datado. As conclusões foram divulgadas ontem, mas partem de um estudo realizado em 2007 por duas investigadoras ao serviço do Centro de Prevenção e Controlo da Doença (CPCD) dos SSM. Susanne Choi, da Universidade Chinesa de Hong Kong, e Vicky Lei, dos SSM, são as autoras do relatório de avaliação das condições de trabalho e riscos de saúde das trabalhadoras do sexo em Macau.

O inquérito, conduzido em duas fases, recolheu informações sobre 113 prostitutas oriundas do Continente, 47 da Rússia, 59 da Tailândia e 272 do Vietname – ao todo, perto de 500 mulheres. A estes dados juntaram-se 100 horas de observação de campo e informações recolhidas em entrevistas longas a 18 mulheres chinesas.

O trabalho incluiu ainda a realização de testes de despiste do vírus da SIDA e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST), com os resultados a indicarem apenas nove casos de sífilis e nenhum de seropositividade. “Felizmente, não se verificou qualquer caso”, relatou Susanne Choi. As investigadoras também não se depararam com nenhum caso de tráfico humano, como é sublinhado no relatório.

A ausência de resultados positivos de VIH ou de casos de tráfico não surpreende as autoras do estudo. Choi lembra que a equipa de investigação não lidou, por exemplo, com situações de mulheres ligadas a redes organizadas de lenocínio. Por outro lado, a maioria dos casos de infecção com VIH acontece entre as trabalhadoras ligadas à indústria do entretenimento, com visto de permanência no território dependente da realização de análises clínicas. Se o resultado for positivo, o visto não será provavelmente renovado, admite Choi.

Até aqui, eram escassos os dados demográficos respeitantes ao universo das mulheres associadas à prostituição. Este relatório, aliás, não tinha sido preparado para publicação: foi apresentado na última reunião da Comissão de Luta contra a Sida, tendo então sido decidida a sua divulgação.

Os dados relevam diferenças entre as trabalhadoras de diferentes nacionalidades. Por exemplo, as cidadãs russas e as oriundas do Continente demonstram ter o maior nível de conhecimentos sobre DST, com uma média de seis respostas correctas num total de oito colocadas pelas investigadoras sobre a doença. As mulheres vietnamitas tiveram uma pontuação média de 4.9, as tailandesas de 5.2.

De acordo com as autoras do estudo, o menor grau de informação entre as trabalhadoras da Tailândia e do Vietname deve-se ao facto de a maioria das mulheres ser proveniente de meios rurais.

A falta de informação é um dos obstáculos o uso do preservativo, mas não o principal. “Os clientes recusam-se a usar preservativo. Isso acontece por duas razões: estão sob influência do álcool ou consideram que já estão suficientemente familiarizados com as prostitutas.”

A maior parte das trabalhadoras inquiridas angaria clientes na rua e nas pensões, cobrando valores por serviço que oscilam entre as 50 e as 80 patacas, de acordo com o relatório, havendo uma grande pressão para que rentabilizem o valor investido num visto de curta duração para Macau no prazo mais curto possível.

“Há uma imagem distorcida das trabalhadoras do sexo”, sublinham Choi e Lei, fazendo notar que 90 por cento das entrevistadas envia o resultado do seu trabalho para casa – uma parte significativa é constituída por mulheres divorciadas e com filhos menores para criar.

“Têm um fardo familiar para suportar. Não entram na indústria porque esta lhes dá dinheiro fácil, mas porque estão sob uma grande pressão”, explica Choi, lembrando que se trata de “uma ocupação muito perigosa”.

Um dos principais riscos assumidos pelas prostitutas, além do de infecção com DST, é o de serem sujeitas a violência pelos clientes. Entre as inquiridas chinesas, 17 por cento admitiram ter sido alvo de agressões graves e 42 por cento disseram ter sido alvo de violação. Os valores são mais baixos entre mulheres de outras nacionalidades, com entre sete a 8,8 por cento a darem conta de agressões graves e 15,8 a 18,6 por cento a relatarem violações.

Segundo as autoras do estudo, tal deve-se ao facto de as trabalhadoras não-chinesas prestarem serviço num ambiente de trabalho mais protegido – habitualmente, estabelecimentos de entretenimento do território.



Recomendações do relatório
1 – Promover campanhas públicas de educação sobre doenças sexualmente transmissíveis (DST) e VIH destinadas à população e aos visitantes de Macau – com programas específicos também dirigidos aos potenciais clientes da indústria do sexo (por exemplo, parcerias entre os Serviços de Saúde e organizações com profissionais predominantemente do sexo masculino).

2 – Disponibilização de materiais educativos traduzidos para chinês, inglês e japonês nas fronteiras de Macau.

3 – Aumentar o acesso à informação das prostitutas de rua provenientes de meios rurais, com uma baixa educação sobre os meios de transmissão das DST e do HIV. Os materiais de informação devem ser traduzidos para chinês simplificado, tailandês, vietnamita, russo, entre outros idiomas escritos, e disponibilizados nas fronteiras do território, nos hotéis onde por norma as trabalhadoras prestam serviços sexuais, e nos laboratórios de saúde onde as trabalhadoras com visto para a indústria de entretenimento realizam análises periódicas. Garantir testes gratuitos de despiste de DST e VIH.

4 – Criar equipas de intervenção em colaboração com organizações não-governamentais que treinem as trabalhadoras da indústria do sexo para a negociação com clientes alcoolizados e que se recusam a utilizar preservativo durante as relações sexuais. A formação deve também apoiar as prostitutas para que saibam utilizar eficientemente os preservativos, dado o elevado número de casos de fracasso no uso dos meios de protecção contra DST.

5 – As forças de segurança devem rever a forma de comunicação e as actividades dirigidas às trabalhadoras da indústria do sexo, em particular, em relação às prostitutas de rua. O relatório sublinha que a falta de confiança das prostitutas em relação às polícias é a causa para a ausência de denúncias de violência perpetrada contra as trabalhadoras e para um sentimento de impunidade por parte dos agressores. O documento sublinha que a atitude da sociedade em relação a estas mulheres deve mudar, para que haja o reconhecimento de que estas gozam dos mesmos direitos que qualquer outro cidadão de Macau.

Maria Caetano